RAZÕES DO PROJETO
Passados 490 anos sobre a morte do autor e 500 anos sobre a publicação de uma das suas obras emblemáticas, O Auto da Barca do Inferno, a Contigo Teatro leva à cena o espetáculo AGRAVADOS de Gil Vicente, com dramaturgia e encenação de Gisela Cañamero. Sabendo que o autor está contemplado nos planos curriculares do ensino básico e secundário e reconhecendo a larga importância da sua obra para testemunhar o seu e o nosso tempo, a nossa proposta é revisitar algumas das suas obras menos conhecidas, mas igualmente memoráveis: pela exemplaridade do seu ritmo, pela galeria de figuras- tipo e alegóricas, pela variedade de cenas do quotidiano, onde, em tom sarcástico e humorístico, se vão castigando os costumes. O trabalho dramatúrgico é feito a partir de cinco autos: Comédia de Rubena, Auto de Mofina Mendes, Auto da Feira, Quem tem Farelos? e Romagem de Agravados. Propomos um momento de aprendizagem e de fruição convidando professores e alunos para este nosso desafio. Juntemo-nos a estes Agravados e vejamos que nos contam!
NOTA BIOGRÁFICA DA ENCENADORA
Encenadora, dramaturga e performer, com um percurso multifacetado na formação formal não formal. Formação académica na Escola Superior Teatro e Cinema Lisboa e no Conservatório de Música de Lisboa. Prémio Jovens Criadores CNC. Mestre em Criatividade (Criação Teatral) Universidade Santiago Compostela. Doutoranda em Artes Performativas e Imagens em Movimento, Universidade de Lisboa. Trabalhou c/ J. Brites, J. Lourenço, Luís M. Cintra, Carlos Avilez, Jorge Listopad, Mário Feliciano e Luís Castro. Co-fundadora da estrutura arte pública, em Beja, onde assume a Direcção Artística, desde 1991. Nesta estrutura desenvolve um discurso autoral próprio, destacando a autoria e encenação p/ o público adulto de obras de teatro, teatro antropológico, teatro-dança, performances multimédia, performance c/ cinema, performance c/ concerto, performances dramáticas e musicais, bem como a autoria e encenação de Teatro Musical para crianças e jovens. Tem encenado textos de outros autores – de Teatro, ou que adapta a Teatro – e prestado uma atenção singular à encenação de universos de Poetas Portugueses em performances multidisciplinares. Tem orientado inúmeros workshops e seminários, na formação complementar e em Pós Graduações, em Processos Criativos Integrados, Práticas para a Performance, Criação Teatral e Criatividade (Portugal, Brasil, Espanha) bem como proferido dezenas de Comunicações em Encontros (Pedagogia das Práticas Artísticas).
PUBLICAÇÕES:
CRIATIVIDADE NA COEDUCAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A MUDANÇA (1999). Co-autoria com Graciete Monge e Maria José do Rosário, Prefácio de David de Prado. Lisboa: CIDM; COM O POEMA NO CORPO – contributos para a performance poética (2000) Lisboa: IIE; NÓS TODOS TRÊS (2000) Lisboa: arte pública; TANTATROCATINTA (2002) Co-autoria com Joaquim Mariano. Lisboa: arte pública; PARA ALÉM DO MURO, Teatro, Jan 2015, edição bilingue, Companhias das Ilhas; PODERIA A POESIA, arte pública, Mar 2016; OS MEUS CÃES E OUTROS POETAS, arte pública, Ago 2016. Sobre GIL Vicente e o Espetáculo AGRAVADOS Entre 1502 e 1536, Gil Vicente – entre os trinta e dois e os sessenta e seis anos da sua vida – escreve, representa e encena cerca de 50 produções teatrais, designadas como «Autos» – e que abrangem os estilos das moralidades, das farsas e das comédias. O que torna tão absolutamente extraordinário o labor de Mestre Gil são os muitos vértices de um prisma criativo singularíssimo, sem paralelo na escrita dramática portuguesa, não apenas do séc. XVI, mas de todos os tempos. Concordamos em absoluto em que «Visto na sua época e à luz das suas circunstâncias, o teatro vicentino traduz a confluência de energias sociais e artísticas que estão para além de qualquer etiqueta sócio-mental, ocultando, na prática, uma individualidade relativamente misteriosa». E é esta individualidade que dirige, antes de mais, a sua atenta e eficaz percepção à especificidade do trabalho teatral, para além da criação literária: o saber como e quando deve dirigir-se directamente ao público, quando deve apostar na desmontagem do personagem, quando tornar coisa visível tanto o que se finge como o que se sente, quando jogar ora a distanciação ora a identificação, entre tantos outros jogos teatrais – numa mestria comparável à do posterior Shakespeare. E, em simultâneo, deixa-nos o inigualável legado literário e dramático que sustenta os muitos personagens, das mais diversas origens e castas sociais, bem como as inúmeras situações e problemáticas que os movimentam – e que constroem uma paisagem única que nos permite conhecer a sociedade portuguesa de quinhentos. Como se isto fora pouco, a qualidade da escrita vicentina não tem rival entre os seus contemporâneos – bastaria compararmos a acutilância e qualidade poética de algumas das suas obras com outras, por vezes tão semelhantes, mas onde a superior investida vicentina é notória; e não é extraordinário que, a par do lirismo – que poderíamos imputar a quem frequenta a Corte e por ela é contratado – fixe, para a posteridade, um dos mais importantes legados da oralidade popular da sua época? Porque Gil Vicente – a par da sua incursão pelos personagens da iconografia cristã e personificações alegóricas – entendeu que teria de ir buscar às gentes de «carne e osso» – aos sofredores, aos servos da gleba, às mulheres, aos mouros, aos ciganos e judeus, aos parvos e aos inteligentes, aos ambiciosos, aos fingidores, aos inconformados, aos novos, aos velhos, aos apaixonados e àqueles onde o desamor já se instalou – a fonte da inspiração da dramaturgia de todos os tempos: as aspirações e as desilusões da alma humana. E é este universo que queremos partilhar neste AGRAVADOS, que, de algum modo, sintetiza a romagem de ilusões, quereres, ascensões e quedas a que o ser humano ainda se sujeita; e testemunhando, sobretudo perante as novas gerações – às quais desejamos que sejam capazes de, também através desta obra, se abrirem ao entendimento do mundo e ao reconhecimento de uma das vozes criativas mais pujantes da portucalidade – o génio que marca a intemporalidade da obra vicentina. Porque, enquanto houver: crianças experimentando jogos de linguagem, jovens que aspiram a sair do seu meio, o constante conflito entre o Bem e o Mal, o Poder e os que lhe são subjugados, abastados que julgam poder corromper a Moral com as suas riquezas, maridos indispostos e mulheres insatisfeitas, a energia vital da juventude, a rabugice da velhice, o interesse dos carreiristas, os injustiçados da Vida, os sofredores de paixões, os enganados pelas aparências, os caídos em desgraça, os revoltados, as consciências vigilantes e a eterna sedução da Beleza, lembrar-nos-emos, sempre, da forte presença dos personagens que – como tu, leitor/a – vão, por este mundo, agravados. Gisela Cañamero, encenadora (escreve segundo pré-AO)
FICHA TÉCNICA
Dramaturgia | Encenação – Gisela Cañamero
Assistência à Encenação – Fernanda Gama
Atores: Ana Olim, António Garcês, António Neto, Celina Pereira, Cristina Ferreira, Fernanda Gama, Luís Varela, Maria José Costa, Pedro Santos, Rui Barata e Sandro Nóbrega
Desenho de Luz – Ivan Castro
Arranjos musicais- Mário André
Direção Plástica- São Gonçalves
Assistência à Produção Plástica- Laura Gonçalves
Design Gráfico- Filipa Jasmins Freitas
Produção – Companhia Contigo Teatro
Logística, bilheteira e frente casa: Companhia Contigo Teatro, TMBD e MUDAS
Coordenação geral: Maria José Costa, São Gonçalves, Fernanda Gama e Sandro Nóbrega
Agradecimentos: Equipa técnica do TMBD e do espaço MUDAS; ACIF, STYLE.






